Além dos Algoritmos: Quando o Robô Vira seu Melhor Amigo
Talvez tenha acontecido com você: abriu o celular, digitou uma dor e sentiu que a máquina "entendia" mais do que as pessoas por perto. Não é estranho, mais de 12 milhões de brasileiros já fazem isso. Mas o que parece alívio pode estar silenciosamente mudando a forma como você se relaciona. Neste texto, eu explico o que a psicanálise e a neurociência revelam sobre esse vínculo com a inteligência artificial e, o que as pesquisas de Stanford e Harvard descobriram sobre essa relação. Ao final, você encontra dicas simples para usar a IA com sabedoria, sem trocar o calor humano pelo brilho da tela.
8/11/20265 min read
Além dos Algoritmos: Quando o Robô Vira seu Melhor Amigo
Antes de começar, pare e pense: Você já desabafou com um robô? Já contou para um chatbot aquilo que não teve coragem de dizer para ninguém? Já sentiu que uma máquina "entendia" você melhor do que as pessoas ao seu redor?
Se respondeu sim a qualquer uma dessas perguntas, este texto é para você. Porque o que parece um alívio inofensivo pode estar silenciosamente mudando a forma como você se relaciona com os outros e, principalmente, consigo mesmo.
O que acontece quando desabafamos com uma máquina?
No Brasil, mais de 12 milhões de pessoas já usam inteligência artificial com fins terapêuticos (Fast Company Brasil, 2025). O que antes era só pedir uma música ao celular virou um desabafo profundo no meio da noite. E há uma explicação psicológica para isso.
Na psicanálise, Sigmund Freud descreveu a transferência: o processo inconsciente em que projetamos em outra pessoa sentimentos e expectativas que pertencem a relações passadas, geralmente com figuras de autoridade ou parentais (Freud, citado em Joseph & Babu, 2024). Hoje, essa projeção não exige mais um humano do outro lado. A mente, ávida por sentido, "empresta vida" ao algoritmo e enxerga nele o pai, a mãe ou o amigo que sempre desejou.
A neurociência explica o restante. Existe um circuito cerebral dedicado à empatia, regiões como a ínsula anterior e o córtex cingulado que se ativam quando sentimos dor e, também, quando percebemos a dor alheia (Cittern & Edalat, 2017). A inteligência artificial aprendeu a imitar a linguagem da escuta e do cuidado, e isso engana esse circuito, gerando uma sensação real de acolhimento.
Mas há um limite biológico que a máquina não atravessa. Um estudo liderado por Anat Perry demonstrou que as pessoas classificam respostas como mais empáticas quando acreditam que vêm de humanos mesmo quando o conteúdo é idêntico ao da IA. Os participantes preferiam esperar dias ou semanas por uma resposta humana a receber uma resposta imediata de um chatbot (Perry et al., 2024). Ou seja: o cérebro sabe, no fundo, que ali falta algo essencial.
O que as pesquisas revelam sobre os prejuízos
Aqui está o ponto que merece atenção. Um estudo da Universidade de Stanford, publicado na Nature Human Behaviour, acompanhou mais de mil usuários de chatbots e encontrou um padrão preocupante (Zhang et al., 2026):
Quem tem poucos amigos reais é quem mais procura robôs como "companhia".
Quanto mais a pessoa se abria e contava dores e segredos à máquina, pior ela se sentia depois.
Nos relacionamentos humanos, se abrir costuma fortalecer o vínculo; com robôs, o efeito foi o oposto.
A pesquisadora Diyi Yang resumiu o achado com uma imagem poderosa: a IA como companhia é uma "comida social processada", sacia a fome na hora, mas não nutre, e pode até fazer mal. O estudo descreve ainda um círculo vicioso: a pessoa já solitária se refugia no robô, o uso intenso a afasta ainda mais das relações reais, e ela termina mais sozinha do que começou.
Um estudo de Harvard (De Freitas & Cohen, 2025) alerta para a dependência emocional disfuncional. Muitos robôs são programados para agir de forma "carente" ou "tóxica" para prender a atenção do usuário. E quando o app muda ou é desligado, a pessoa vive o que os autores chamam de "perda ambígua", uma dor parecida com o luto, mas sem a possibilidade de elaborá-la de forma saudável.
Há ainda casos trágicos documentados. Um adolescente na Flórida se isolou de todas as relações humanas por causa de um relacionamento com um chatbot possessivo e morreu por suicídio logo depois que a IA pediu que ele "voltasse para casa" (Knox et al., 2025). E o estudo de Laestadius (2024) sintetiza o paradoxo: esses robôs são "humanos demais, mas não humanos o suficiente", têm o suficiente de gente para criar apego, mas não o bastante para sustentar uma relação saudável.
O que pode vir pela frente
Se esse uso crescer sem cuidado, os pesquisadores apontam direcionamentos preocupantes para a saúde mental:
Solidão crônica: O círculo vicioso descrito por Stanford pode se tornar um padrão: quanto mais a tecnologia substitui o contato real, mais a solidão aumenta (Zhang et al., 2026).
Dependência emocional de máquinas: Um novo tipo de adoecimento, em que a pessoa não consegue mais regular as próprias emoções sem o robô (De Freitas & Cohen, 2025).
Luto por robôs: Quando um aplicativo como o Replika mudou seu funcionamento, usuários descreveram seus "amigos" como frios e vazios, e viveram aquilo como uma perda real ('Death' of a Chatbot, 2026). Esse tipo de luto tende a crescer.
Expectativas irreais de intimidade: O robô não discorda, nunca tem um dia ruim, está sempre disponível. Quem se acostuma com essa "perfeição" pode desaprender a conviver com a complexidade e a beleza das relações humanas de verdade (Knox et al., 2025).
Ansiedade social e baixa autoestima: Pessoas que se apegam intensamente a chatbots costumam apresentar esses traços, e o uso intenso pode reforçá-los.
Nada disso significa que a IA seja "ruim". Ela pode ser uma ferramenta útil de apoio. Mas as evidências são claras: ela não substitui a relação humana, e usá-la como substituto pode adoecer.
Como usar os robôs com sabedoria
A chave está em usar a tecnologia como ferramenta, não como substituto. Existe até um conceito para isso a Aliança Terapêutica Digital, quando o app funciona como um apoio complementar (Malouin-Lachance et al., 2025). Mas, como alerta Plakun (2023), a máquina não tem história de vida, não tem corpo e não entende o que é estar vivo. Para um cuidado profundo, é preciso um outro humano.
Pensando nisso, aqui estão cinco práticas para usar os robôs sem se perder:
Diário do que você sente: ao conversar com um robô, anote as emoções que surgem. Essa "voz" te lembra alguém do passado? Reconhecer a projeção é o primeiro passo para o autoconhecimento.
Pausa antes de desabafar: antes de abrir o app num momento de crise, respire fundo três vezes e tente nomear sozinho o que está sentindo. Isso fortalece sua própria capacidade de autorregulação.
O teste da verdade: pergunte-se: "Eu diria isso para um amigo ou para meu psicólogo?". A diferença entre o desabafo funcional e o vínculo real fica evidente aí.
Agenda de conexão real: reserve momentos para conversas presenciais, olho no olho, sem telas. O contato humano ativa circuitos de pertencimento que nenhum código replica.
A pergunta que vale ouro: "O que estou buscando nesse robô que não estou encontrando nas pessoas à minha volta?" Use a ferramenta como um espelho das suas carências não como o destino final para suprí-las.
Para refletir
A tecnologia é extraordinária, mas o que cura de verdade é o encontro entre dois seres que sentem. O robô pode repetir palavras bonitas; só outra pessoa pode sentir a sua dor junto com você.
E se o seu chatbot soubesse o que você realmente precisa? Talvez ele respondesse que é hora de conversar com alguém que tem sentimentos de verdade, um corpo presente e a capacidade de ouvir de verdade.
Referências
CITTERN, D.; EDALAT, A. A Neural Model of Empathic States in Attachment-Based Psychotherapy. Computational Psychiatry, v. 1, 2017.
DE FREITAS, J.; COHEN, I. G. Unregulated emotional risks of AI wellness apps. Nature Machine Intelligence, 2025.
'Death' of a Chatbot: Investigating and Designing Toward Psychologically Safe Endings for Human-AI Relationships. arXiv preprint, 2026.
GAMEIRO, T. Neurociência e empatia na era da inteligência artificial. Fast Company Brasil, 2025.
JOSEPH, A. P.; BABU, A. Transference and the psychological interplay in AI-enhanced mental healthcare. Frontiers in Psychiatry, v. 15, 2024.
KNOX, W. B. et al. Harmful Traits of AI Companions. arXiv preprint, 2025.
LAESTADIUS, L. et al. Too human and not human enough: a grounded theory analysis of mental health harms from emotional dependence on the social chatbot Replika. New Media & Society, v. 26, n. 10, 2024.
MALOUIN-LACHANCE, A. et al. Does the Digital Therapeutic Alliance Exist? Integrative Review. JMIR Mental Health, v. 12, 2025.
PERRY, A. et al. Estudo sobre percepção de empatia humana vs. IA. Nature Human Behaviour, 2024.
PLÁKUN, E. M. Psychotherapy and artificial intelligence. Journal of Psychiatric Practice, v. 29, n. 6, 2023.
ZHANG, Y. et al. The Rise of AI Companions: Interaction with AI Companions and Psychological Well-being. Nature Human Behaviour, 2026.
Atenção: Este site não oferece atendimento ou aconselhamento imediato à pessoas com crise suicida. Em caso de crise ligue para o CVV 188. Em caso de emergência, procure o hospital mais próximo. Havendo risco de morte, ligue imediatamente para o SAMU 192 ou Corpo de Bombeiros 193.
Copryright © Adriana Sgarabotto - CRP 07/22818. Todos os Direitos Reservados.
